Entrevistas, Palavra de Especialista

Pediatra Catherine Cadore comenta o vínculo mãe-bebê

 

Priscilla Borges

 

Por Paula Tweedie

No momento em que, pela primeira vez, uma mãe toma seu recém-nascido nos braços, toca-o, fala-lhe, ela o olha, ela lhe oferece seu cheiro e seu calor; já suas características de mãe são além de dados objetáveis tais como aparecem a nós, adultos: são igualmente e em conjunto outros tantos estímulos interacionais que o bebê pode receber, pois ele tem já capacidades sensoriais: visuais, auditivas, olfativas, etc.” (Lebovici, 1987)

Quando começa a relação mãe-bebê?

A relação mãe-bebê e a formação do vínculo trata-se de um processo tão complexo quanto sutil e de importância vital para o feto e posteriormente para a criança, uma vez que a força e o caráter dessa relação influenciarão, por toda a vida, a qualidade de todos os laços futuros com os outros indivíduos. Não apenas entre a mãe e o bebê, o vínculo que se constrói na relação estabelecida entre o bebê e seus pais ou principais cuidadores é muito maior do que o interesse em alimentar, trocar e tomar conta do bebê. É cuidar e colocar-se no lugar desse bebê, perceber e reponder às suas necessidades físicas e emocionais. A relação mãe-bebê começa muito antes do nascimento, ainda no ambiente intra-uterino e não se dá de forma automática e imediata, mas gradual, necessitando tempo, compreensão e amor para que possa existir e funcionar adequadamente. A base dessa relação vai se constituindo ao longo da gestação, tendo o parto como um momento também importante, e se estendendo ao período do puerpério (os três primeiros meses após o parto), crucial para a consolidação do vínculo entre a díade mãe-bebê e consequentemente para o desenvolvimento global da criança.

Como funciona essa relação?

No período pré-natal os pais, em especial a mãe, já constroem a noção de individualidade do bebê, reconhecendo alguns de seus comportamentos e características temperamentais. Estudos apontam a existência de uma relação materno fetal bastante intensa, a qual é embasada especialmente nos sentimentos ou expectativas da gestante sobre o bebê. O período da gestação é caracterizado por inúmeras mudanças e sentimentos ambivalentes, intimamente relacionados à história e às experiências vividas pela gestante ao longo da sua vida. A gravidez dá a mulher a grande oportunidade para aprender mais sobre si mesma e sobre o novo papel que virá a desempenhar, é um período cercado de mistérios insolúveis e estranhas reações que acompanham todo o desenvolver do processo até o parto. Já o parto e os primeiros momentos com o bebê encerram esse período que é repleto de expectativas e fantasias. Após o parto, entretanto, advém uma nova e tão complexa experiência, uma vez que a realidade do bebê imaginário, na barriga da mãe, não é a mesma realidade do bebê recém-nascido. É nesse momento que a mãe irá atribuir um novo significado à experiência da maternidade. Os primeiros dias após o nascimento do bebê são carregados de emoções intensas e variadas. Trata-se de um momento também muito complexo na vida da mulher, possibilitando inúmeros sentimentos ambivalentes, completamente normais nesse período. O puerpério é um período de transição quando a mulher torna-se especialmente sensível e confusa. Após o parto a mãe percebe o que o bebê é outra pessoa, sendo necessário elaborar a perda do bebê da fantasia para entrar em contato com o bebê real. Há aspectos difíceis e objetivos na relação mãe-bebê que justificam essas reações: mãe e filhos se conhecem muito pouco, ainda não se estabeleceu um padrão de comunicação entre eles e, com frequência, a mãe não sabe distinguir quais são as necessidades do bebê. É por isso, no início, uma relação bem pouco estruturada, não-verbal e intensamente emocional. Portanto, o puerpério marca um período significativamente importante quanto à formação do vínculo, tanto para a mãe quanto para o bebê, determinando a qualidade da ligação afetiva que irá se estabelecer entre os membros da díade e, consequentemente, influenciando todo o desenvolvimento desse novo ser em formação.

A amamentação pode influenciar de alguma maneira nesse vínculo? Afinal, qual a sua importância? Até quando é recomendada?

A amamentação tem um papel de fundamental importância na formação do vínculo mãe-bebê. É um momento único na vida tanto da mulher quanto do bebê. É um momento de interação e contato intímo, no qual são trocados muito mais do que nutrientes e anticorpos, mas amor, compreensão e afeto. A distância entre o rosto da mãe e os olhos de seu bebê na altura de seu seio é exata para que esse possa focar sua visão e estabelecer um contato visual importante com a mãe, que representa seu referencial de existência nos primeiros momentos de vida. A amamentação é recomendada de forma exclusiva até os 6 meses e complementar entre 1 e 2 anos de idade, salvo algumas exceções.

Também é importante salientar que, apesar de importante e fundamental, a amamentação não é a única maneira de estimular e fortificar o vínculo mãe-bebê.

Quais outras maneiras de oportunizar a ligação entre mãe e filho?

Toda e qualquer interação da mãe com seu bebê é uma forma de ligação entre eles. Desde as primeiras fantasias e expectativas da mulher em relação ao então feto se formando em seu interior, passando pelas mudanças físicas e emocionais, bem como diversas sensações de toda a gestação, a experiência do parto, o puerpério e após os cuidados em geral com o bebê são oportunidades de vinculação. Por isso todo o momento é uma grande oportunidade para se fortalecer esse vínculo, inclusive os momentos de ambivalência pelos quais todas as mulheres passam.

É possível dizer que as crianças que recebem mais atenção das mães são mais saudáveis e adoecem menos?

Uma relação mãe-bebê adequada reflete o desenvolvimento global da criança, não apenas orgânico, portanto, é possível sim dizer que crianças cuja formação do vínculo com suas mães se deu de maneira saudável são consequentemente crianças saudáveis. Existem diversos estudos sobre o assunto. Segundo John Bowlby, é importante os pais fornecerem uma base segura a partir da qual a criança ou até mesmo o adolescente possa explorar o mundo de forma a se sentirem física e emocionalmente amparados, confortados se houver um sofrimento e encorajados se estiverem ameaçados. De acordo com esse autor, crianças que obtiveram um apego seguro com suas mães tendem a se tornar, no futuro, indivíduos cooperativos, autoconfiantes e sociáveis. Assim como crianças que não estabeleceram uma relação de apego satisfatória (que pode se caracterizar tanto quanto pela ausência de apego quanto pelo apego excessivo) tendem a se tornarem emocionalmente afastadas, hostis ou anti-sociais. Donald Winnicott, por sua vez, descreve a importância de uma mãe suficientemente boa, definida como uma mãe flexível o suficiente para poder acompanhar o filho em suas necessidades, as quais oscilam e evoluem no percurso para a maturidade e autonomia, possuidora de uma sensibilidade peculiar que a leva a poder sentir como se estivesse no lugar do bebê, de maneira a ser capaz de responder às suas necessidades que são inicialmente corporais e, posteriormente, necessidades do ego. Winnicott salienta que a mãe pode vir a falhar em satisfazer as exigências instintivas, mas pode ser perfeitamente bem sucedida em jamais deixar que o bebê se sinta desamparado, provendo as suas necessidades egóicas até o momento em que ele tenha idade suficiente para se manter apesar das falhas do ambiente. O bebê bem cuidado rapidamente estabelece-se com pessoa, ao passo que o bebê que recebe apoio egóico inadequado ou patológico tende a apresentar padrões de comportamento caracterizados por inquietude, estranhamento, apatia, inibição e complacência. Já Spitz aponta como inestimável a importância dos sentimentos da mãe em relação ao seu filho. O amor e afeição pelo filho o tornam um objeto de contínuo interesse para a mãe, que lhe oferece uma gama renovada, rica e variada de experiências vitais. O que torna essas experiências tão importantes para a criança é o fato de que elas são interligadas, enriquecidas e caracterizadas pelo afeto materno, e a criança responde afetivamente a esse afeto. Portanto, a atitude emocional e afetiva da mãe servirá para orientar os afetos e conferir qualidade de vida ao bebê.

O que existe de pesquisas nesse ramo?

Existem diversas pesquisas e estudos, como alguns citadas na pergunta anterior. É um assunto rico e amplo. Ainda temos muito o que observar e aprender. Mas, como costumo dizer às minhas pacientes e a mim mesma no papel de gestante (estou esperando meu primeiro bebê, com 18 semanas neste momento), trata-se de uma experiência única e maravilhosa que por mais teorizada e estudada que seja só a vivência a torna tão maravilhosa quanto realmente é, e se existe alguém que pode e deve aprender com erros e acertos em relação ao seu próprio bebê, é a mãe.

Mensalmente, a pediatra Catherine Cadore fala sobre os preparativos para a chegada de seu bebê no site www.groomingplace.com.br

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4 Respostas para “Pediatra Catherine Cadore comenta o vínculo mãe-bebê”

  1. Em 10 de agosto de 2011 em 2:51 respondeu com ... #

    Assunto importante. Legal a entrevista.
    Parabéns!

    • Em 10 de agosto de 2011 em 2:54 paula respondeu com ... #

      Obrigada!

  2. Em 10 de agosto de 2011 em 13:21 Catherine Cadore respondeu com ... #

    Muito obrigada, adorei a oportunidade de falar sobre um assunto tão interessante e que pode ajudar muitas mães e cuidadores.

    • Em 10 de agosto de 2011 em 15:06 paula respondeu com ... #

      Eu que agradeço, Dra. Catherine.

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