De Tudo, Papo de Mãe

Papo de mãe

Foto: arquivo pessoal

 

Por Milena Fischer  

                Olá, leitoras e leitores.

                Lembro-me bem de uma tarde qualquer ainda na redação da Zero Hora em que a Mariana Bertolucci e eu falávamos sobre ser mãe. Nossas filhas ainda eram bebês e há tempo já havíamos voltado da licença-maternidade. Eu bem antes que a Mari. Falávamos da inerente condição da culpa. Por que o ato de se tornar mãe traz, com ele, esse fardo emocional tão constante? Quero debater isso com vocês.

                No nosso caso, a conversa dominante era sobre quanto tempo passávamos no trabalho e quanto tempo com as pequenas. Pouco, sempre dizíamos, não ficamos tempo suficiente com elas. E qual será essa medida do “suficiente”? Amor não tem isso de “pronto, agora está suficiente”. Difícil medir. E paira no ar um raciocínio um tanto sórdido, que diz que as mães devem trabalhar, seguir suas carreiras, e, por outro lado, reforça o quanto as mães passam tempo demais longe dos filhos. E quando chegávamos em casa, dependendo do dia no trabalho, ainda estávamos cansadas para curtir bem essa entrega à maternidade. Culpa de novo. E se não almoçávamos em casa, e se o dia estava ensolarado e não tínhamos como levá-las à praça. Delegamos, obrigatoriamente, algumas tarefas a terceiros, avôs, avó, babá. E mesmo que eles fossem amorosos e dessem a nossas filhas outros tipos de experiência, lá vinha ela, a culpa, segredando que não estávamos ali. E quando estávamos, não era por inteiro, porque ainda tínhamos nossos assuntos, trabalho, amigos, uma leitura atrasada.

                Não é fácil ser mãe nesses tempos ditos modernos. Principalmente por essa farsa publicitária que impõe padrões. Até para o amor, mesmo para a maternidade. Quando minha avó criou seus cinco filhos, a rua era segura, eles eram cinco, a família morava próxima, os vizinhos eram amigos, e ela trabalhou a vida toda – em casa. Era uma exímia e disputada costureira. Hoje, a família é outra. Muitas são formadas por filhos únicos, muitas são monoparentais (pai e filho, mãe e filho), muitas se afastam porque o pai ou a mãe tem que trabalhar em outro Estado ou cidade. Tantas mudanças, tantas novas formas de se conviver em família, e a culpa segue a mesma sobre as mães. O tempo com os filhos está de bom tamanho? A comida está suficientemente saudável? Eles têm tomado a quantidade de sol necessária por dia? Como vai ser se eu viajar uma semana? Meu filho vai sobreviver? Ele tem brinquedos demais? Os brinquedos são educativos? Como que eu já deixo meu filho usar o computador? É cedo? É necessário? Às vezes sufoca.

                Mas sabe o que sufoca mesmo? Tentar se encaixar em algum padrão imposto por algum discurso que não seja aquele que vem do nosso coração de mãe. Naqueles dias de bate-papo, depois de ter entrevistado a Carolina Ferraz, a Mari me contou uma frase dela: “Sou a melhor mãe que posso ser”. É isto. Para viver uma maternidade completa, com todos os seus paradoxos, desafios, frustrações, alegrias e conquistas, é preciso ser o que se é. E não o que se poderia ser, segundo livros, propagandas, filmes, opinião dos vizinhos ou mesmo de sua própria mãe. É verdade que nesse mundo “moderno” a solidão impera, estamos mais conectados e mais sós do que nunca. Por isso mesmo, o melhor discurso a ser ouvido é o do seu coração. A culpa sempre existirá, é da condição humana. Mas é possível não se entregar a ela e viver uma maternidade íntegra e original. A sua. Que será diferente da experiência de todas as outras mães. Não melhor, não pior, não mais dedicada ou menos ideal. Simplesmente a melhor experiência de maternidade que VOCÊ pode viver.  

                Um beijo,

                Milena

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10 Respostas para “Papo de mãe”

  1. Em 28 de novembro de 2011 em 10:07 Luciana Zonta respondeu com ... #

    ADOREI! Tudo o que penso. :-)

    • Em 28 de novembro de 2011 em 13:10 raquel respondeu com ... #

      Eu também penso assim, Luciana. Cada uma encontra o SEU modelo ideal de maternidade. Fazemos o melhor que podemos… A Milena estava iluminada ao escrever esse texto! Beijo.

  2. Em 28 de novembro de 2011 em 23:43 paula respondeu com ... #

    Raquel, vamos combinar que a Milena É iluminada, né? É um texto melhor do que o outro…

    • Em 29 de novembro de 2011 em 16:24 milena respondeu com ... #

      Aaaaah, meninas… obrigada (corei)!

  3. Em 29 de novembro de 2011 em 2:46 luciana respondeu com ... #

    iluminadissima! amei, concordo e eh isso ai! sempre fui fa da frase “temos que seguir o nosso coracao”…. nao existe manual para a maternidade, o importante eh estarmos felizes com nossas escolhas, seguir mesmo o coracao, assim passamos seguranca para nossos filhos.
    parabens!

    • Em 29 de novembro de 2011 em 7:59 raquel respondeu com ... #

      Disse tudo, Lú! Beijão.

  4. Em 29 de novembro de 2011 em 18:39 respondeu com ... #

    Como de costume, adorei o texto.
    Parabéns!

    • Em 29 de novembro de 2011 em 22:51 paula respondeu com ... #

      A Milena arrasa. Sempre.

  5. Em 8 de fevereiro de 2012 em 16:10 Jaciana respondeu com ... #

    Nossa! Vou ter que dizer que fiquei arrepiada, tava muitooo precisando ler isso. Parece que foi escrito pra mim. Faz uma semana que voltei da licença maternidade e estou cheia de conflitos, dúvidas, inseguranças, medo e a pior de todas, a CULPA dentro de mim, sinto exatamente isso que a Milena descreveu acima (Delegamos, obrigatoriamente, algumas tarefas a terceiros, avôs, avó, babá. E mesmo que eles fossem amorosos e dessem a nossas filhas outros tipos de experiência, lá vinha ela, a culpa, segredando que não estávamos ali) quando saio do trabalho e vou pegar minha filha na casa da avô, pergunto como foi o dia e ela me diz que ela sorriu, brincou, chorou e eu fico me roendo por dentro e vem aquela culpa enorme…”pq eu não estava ali pra ver tudo isso?” mães modernas, acho que nossas avós é que eram felizes…
    Foi muito bom ler isso,me senti um pouco mais aliviada. Obg Milena e ao mães a obra. Bjão!

    • Em 22 de fevereiro de 2012 em 22:22 milena respondeu com ... #

      Imagina, Jaciana. Te livra da culpa, ou pelo menos tenta. Somos as melhores mães que podemos ser. E nossos filhos compreendem isso. Seja honesta e amorosa. O resto é consequência. Grande beijo.

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