Legados
Por Milena Fischer
Muitos pensamentos me tomam a cabeça neste feriado de Carnaval, por isso talvez eu tenha custado tanto a escrever a coluna. Há uns bons anos costumo me recolher nessas pausas prolongadas para ficar em família, ao ar livre, calma, desintoxicando mesmo. E, desde que Manu nasceu, aproveito para observar cada instante do dia dela, dos sorrisos mais alegres às birras mais improváveis. Desde ontem fico pensando: por que temos filhos?
Por que fazemos as coisas que fazemos e vivemos a vida que vivemos?
Não costumamos pensar muito sobre o porquê das coisas. Vamos vivendo, faz parte, e vivemos em tempos de comunicação instantânea, o que está nos tornando mais instantâneos, um tanto impacientes, menos comoventes e reflexivos. Por que você trabalha no que trabalha? Já parou para pensar se essa escolha pode ser revista ou se você está, de fato, fazendo algo que tenha uma razão de ser? Por que sustentamos casamentos tóxicos, por que desistimos facilmente ao primeiro impedimento, por que perdemos a tolerância e… por que temos filhos?
Já vi muitas amigas comentarem mil “motivos” para adiarem a maternidade. Filho custa dinheiro. Filho precisa de estrutura. Mas isso não são razões. Não são porquês. São questões práticas do dia a dia que se resolvem com planejamento. Não com essência.
Agora, é difícil as pessoas listarem (nem que seja um) motivos reais para terem filhos. Por que você quer ter um filho? Por que você tem filhos? Para compor um quadro bonito? Para poder fazer festa todos os anos? Para ter o que conversar com as amigas que estão tendo filhos? Pode parecer brincadeira, mas acho que devemos, de vez em quando, rever os porquês de nossa vida. A essência. O que, de fato, nos move a criar, fazer, crescer, querer, aprender. Filhos não dão trabalho e não custam caro. Eles simplesmente transformam a vida de uma maneira profundamente essencial.
Reorganizam as noites, os horários, as finanças, os objetivos, os desejos, as refeições, a lista do supermercado, o horário de acordar, de deitar e de trabalhar. E nada disso é surpreendente nem cansativo para quem escolhe ter filhos – e tem, para isso, uma razão essencial. Um porquê. E o mais intrigante: esse motivo pelo qual você escolheu ter um filho vai se multiplicando e assumindo novos significados à medida em que ele se desenvolve. Ter um filho não é um desejo inerente a homens e mulheres, e me surpreendo, ainda, com mulheres ou casais que têm dificuldade em admitir que não desejam filhos. Como se fosse um tabu. Da mesma forma me surpreendo com pessoas que geram filhos sem ter a menor noção dos motivos profundos que as levaram a formar uma família. Apenas seguem um roteiro pré-estabelecido de nascer, crescer, reproduzir e morrer. Como se não fossem sujeitos de si mesmos.
Viver uma vida com sentido é um legado que recebi e pelo qual me sinto grata. E o qual espero deixar para minha filha: ter essência no que se faz. Não me interessa em geral como ela fará as coisas, mas por quê. O que a moverá na direção de sua própria vida. Remexendo nas minhas coisas, encontrei algumas palavras de minha mãe em uma das vezes em que eu estava mudando os rumos da minha vida:
“Minha adorada filha!
Você precisa saber como é bom pra mim ouvir tua voz no telefone com aquela nota de atitude, garra e determinação. Não tem coisa melhor do que essa coisa que nem um som chega a ser, é mais: é a alma. Sou sua fã, estou na torcida, não há muito que eu possa fazer, a não ser ter torcido durante anos pra ver você iniciando sua estrada rumo à independência. Nunca esqueça de ser reta, justa e compreensiva. Seja simples: você está dando exemplo para a Manu. Seja Milena.
Com muito amor,
Mãe”
Amor. Confiança. Ser o que você é – o que muitas vezes levamos uma vida para descobrir. Isso é um legado.
Beijos e até a próxima.
Milena







amei cada linha, cada paragrafo! emocionante e real. vc tem um talento incrivel de conseguir colocar sentimentos assim no papel, parabens! well said : )
Realmente, Lú, esse texto da Milena é de uma profundidade inquestionável… Exata como sempre! Beijos.
Puxa, Lu, muito obrigada!
Lindas e perfeitas palavras
d+ mesmo
Parabéns!
Clarissa, obrigada!
Milena, como sempre, maravilhosa!
Paula, sua fofa!
Milena, que texto emocionante!
Parabéns!
Tenho acompanhado o “mães à obra” e seus textos transmitem emoção e espontaneidade.
Continue nos presenteando com suas palavras!
Beijos!
Muito obrigada, Ítala!