O rol das perdas

Minha conversa será curta, hoje, porque é mais uma proposta de reflexão do que uma coluna comum. Na madrugada do último sábado, a labradora Maricota morreu, devido a problemas no fígado. Manu estava na sala quando recebemos a notícia e ficou profundamente magoada, chorou, lembrou de episódios com a Maricota. Sofreu a perda. No ano passado, perdemos dois filhotes no parto de nossa cachorrinha Shi-tzu. Manu sofreu e realizou uma cerimônia de adeus àquela que ela havia batizado de Fofurinha, que nunca nem chegou a respirar. No ano passado, também Manu perdeu sua bisa repentinamente. Até hoje, conversa com ela e lembra que ela está presente em momentos como na ceia de Natal.

Lembrei da tal propaganda em que o peixe morre e os pais substituem por outro no aquário sem que a filha saiba. Há perdas que podemos (ou devemos?) contornar. Não sou a favor de expor as crianças a todas as agruras do mundo desde cedo. Nós, pais, tendemos a protegê-las das perdas e frustrações. Devemos? Até quando? Mas a vida nos apresenta situações em que não é possível simplesmente contornar um acontecimento de perda. Muito menos diante de uma criança de sete anos. O luto dói, mas ensina. Em que medida? Não sei precisar. Acho que não devemos dar às crianças uma carga de informações que elas não tenham idade de suportar. Mas não gosto da ideia de criar iglus emocionais.

E vocês, como lidam com as perdas diante dos filhos?

Um beijo contemplativo,

Milena

Papo de mãe com Milena Fischer

Pessoal, eu e a Paula estamos muito contentes e orgulhosas em apresentar para vocês a mais nova colaboradora do Mães à Obra: a competente jornalista Milena Fischer. A partir de hoje, quinzenalmente, às segundas-feiras, será publicado um dos maravilhosos textos da Milena, falando de uma forma bem intimista sobre a maternidade. A Milena é mãe da graciosa Manuela, de 7 anos, e já foi nossa It mammy, lembram?

Tenho certeza de que vocês vão curtir os textos dela. Eu adoro a forma como a Milena escreve, sempre me faz refletir e ver as coisas por outro ângulo…Papo de mãe

Com vocês, Milena Fisher, a mais nova mãe à obra!l

Olá, leitoras e leitores. Combinei com a Raquel que este espaço seria bem íntimo, para que possamos trocar experiências pessoais. Antes de pegar no mouse, peço que escrevam, contem dramas, dúvidas, relatem acontecimentos, para que, juntas, passemos a limpo todas as delícias e os dramas da maternidade. Em todas as suas fases.

Tenho 35 anos e uma filha que acaba de completar sete, a Manuela. Sou jornalista por formação e apaixonada por literatura desde o DNA. Aos oito anos, escrevi um “livro”, a caneta, porque computadores pessoais não existiam, arranquei as folhas do caderno, com rebarbas e rasuras, e perguntei à minha mãe:

– Posso mandar para a Editora Ática (eu amava os livros da Ática)?

Minha mãe talvez soubesse que não iria rolar o meu primeiro livro publicado, mas fez o que me vejo fazendo com a Manuela hoje. Incentivou. Até mesmo porque seria uma das primeiras lições de frustrações, caso não fosse aceito pela editora. E um grande ensinamento sobre empenho e dedicação. É preciso fazer, fazer, fazer, aprender, aprimorar-se para, quem sabem, ter sucesso no que se quer fazer.

Mandamos “o livro”, que se chamava Naniquinha, a Menina que Tinha Medo de crescer, pelo correio.

Em alguns dias, chegou o dourado envelope da editora.

Gelei. E se fosse um “sim”? Mas não era exatamente um “sim, prepare-se para a sessão de autógrafos”. Era uma longa carta, que guardo até hoje, elogiando a história, agradecendo a escolha pela editora, explicando que não publicavam livros escritos por crianças e me incentivando: escreva, escreva, escreva. Quando fores adulta, estarás pronta para publicar.

Adorei a carta e a guardo nos meus alfarrábios.

Mesmo antes de nascer, minha filha Manuela se desenvolveu nesse meio de letras e páginas. Eu lia histórias para ela quando ainda estava grávida. Desde muito pequena ela gostava de mexer nos livros e ficava atenta às ilustrações. Foram vários que ela mordeu, rasgou páginas, pediu que lesse para ela. Até meados desse ano. Não sei bem o dia em que me dei conta que ela passou a ler apenas “com os olhos”. E pulou, com curiosidade histórica, para o volume A Bíblia para as Crianças (235 páginas com poucas ilustrações). Depois veio Pipi Meia Longa, Judy Moody, O Ladrão de Sorrisos, contos, e é assim, um ou mais livros “grandes, mamães” por semana.

Vou dizer uma coisa, bem clara e franca, caso alguma de nós, mães, ainda não tenha percebido. Não há produto cultural (adequado e inteligente) que não encante uma criança. Esqueça os livros e filmes tatibitati. Jamais subestime a curiosidade e a inteligência de seu filho. Ele pode ter um ritmo diferente do filho do vizinho. Não compare, não exija, não espere. Deixe-o livre para fazer suas descobertas, mas ofereça essas possibilidades sem medo e sem forçar a barra! Livros são companheiros de berço das crianças porque eles fazem o que poucas coisas conseguem fazer: estimular a imaginação e o entendimento do mundo. E para elas, as crianças, esse processo é simples, encantador e inestimável.

Essa é a primeira mensagem que quero deixar a vocês. Troquem os brinquedos que brincam por si por brinquedos que convidem a criança a agir e criar. Troquem o vocabulário frouxo pelo vocabulário das crianças – que é mais rico do que imaginamos. E deixem que elas façam todas as perguntas do mundo. Não tenham preguiça nem medo de serem questionados. Elas aceitam mesmo um “não sei, meu filho”. E aí vem a melhor a parte: vocês aprendem juntos.

Um grande beijo de quem vive sendo questionada e desafiada.

Milena