Uso do desenho no tratamento de crianças? Vanna Puviani comenta

Gurias, na semana passada, aconteceu um evento super bacana aqui em Porto Alegre promovido pelo Infapa, instituto parceiro do Mães à Obra:  ”O uso do desenho e dos símbolos no tratamento de crianças e casais”. Não cheguei a divulgar nada antes porque o workshop era direcionado a especialistas, mas aproveitei a vinda da psicoterapeuta Vanna Puviani, professora da Universidade dos Estudos da Bologna (Itália) e especialista no uso terapêutico das linguagens não-verbais na Psicoterapia Imaginativa para uma entrevista. Espiem só:

Uso do desenho no tratamento de crianças?

As emoções nem sempre são expressas verbalmente, correto? Como, então, tentar entender o que as crianças sentem?

Não é tão importante entender o que as crianças sentem, mas favorecer a expressão das emoções da criança. O desenho é o caminho escolhido pela criança, o mais alegre e profundo, para falar de si, para se conhecer e se fazer reconhecer na sua singularidade e beleza. É uma maneira muito eficaz de se mostrar através das suas criações, e não apenas através de comportamentos problemáticos.

Além da linguagem verbal, que outras formas há de expressão?

Através da arte eu vou despertar o lado artístico da pessoa para que ela possa procurar a beleza, presente em tudo e em cada ser humano. Através de gestos criativos como escrever, pintar, desenhar, cantar, dançar… Através da prática focada nas artes eu ajudo as pessoas a buscar o contato consigo mesmo, com sua própria casa e com os entes queridos.

É possível interpretar sentimentos através de desenhos e símbolos?

A minha escolha não é interpretar os sentimentos, mas trazê-los de volta à vida através do desenho, isto é, do gesto, das cores, das formas e dos símbolos que você pode reconhecer como bons, como os seus sentimentos e como todas as pessoas. E eles são “bons”, porque são seus, visíveis e reconhecíveis através dos símbolos escolhidos e, portanto, não são mais assustadores.

Qual o papel das cores na interpretação de um desenho?

A minha escolha é não interpretar o desenho, assim como não se interpreta um quadro ou uma música, e então o efeito benéfico onde está? Encontra-se nas emoções que evocam o olhar e nas histórias que ativam o seu autor.

E em relação ao desenho? Em quais aspectos ele pode ser observado além das cores? Traçado? Objetos presentes?

Desenhar significa ver e tornar visível o mundo interno e as relações externas: geometria e símbolos, proximidade e distância, que antes eram obscuras. Significa ver os problemas e ver as soluções. Juntos: adulto e criança em busca das necessidades e sonhos, tudo para tornar visível e possível de ser narrado. O desenho não deve ser interpretado pelo adulto, mas proposto por ele e utilizado pela criança para contar, para gritar os seus problemas e sussurrar as soluções, o desenho que se torna auto-revelação.

É saudável que pais e educadores estimulem os filhos a desenhar?

Eu acho que sim, porque é exatamente através do desenhar que a criança se expressa, se reconhece, se narra, se auto- revela. Desenhar é uma atividade sagrada de criatividade. É a maior obra de arte que nos foi dada, poder criar uma forma, uma voz, cores e dar visibilidade à sua própria individualidade única e singular.

A partir de que idade as crianças têm coordenação motora para o desenho?

A partir de dois ou três anos de idade a criança acha divertido passear sobre uma folha com uma cor e deixar os traços de si bem visíveis para mostrar a uma pessoa atenta e pronta a apreciar os seus gestos. Gestos aparentemente sem sentido para o adulto, mas plenos de intencionalidade para a criança.

Quando as crianças conseguem fazer a figura humana?

A habilidade da criança de dar forma ao corpo humano e a qualquer objeto que ele vê é uma conquista que começa a partir dos três ou quatro anos de idade e que varia, tanto em relação à idade, quanto aos estímulos familiares e ambientais. É, portanto, sempre apropriado oferecer a criança a oportunidade de desenhar.

Quais seriam os sinais que poderiam indicar uma situação problemática ou de inadequação, indicando o encaminhamento a um especialista?

Os sinais mais claros de sofrimento são expressos pela criança através da escolha de um comportamento inadequado e preocupante. O desenho é um instrumento de cura, pois dá à criança a oportunidade de se expressar, de narrar a si mesmo, de reconhecer-se e de se fazer conhecer e ser visto. E assim vai transformar os seus relacionamentos afetivos, fazendo com que o adulto o veja através dos seus olhos. Eu sempre sugiro aos pais e professores que desenhem para buscar as formas “belas” para dar vazão, luz e visibilidade à beleza que está em toda parte, a beleza que é a explosão de vida dentro de nós, à nossa volta, graças a nós.

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